Esta entrevista, feita por mim, foi publicada no Fluminense Online, no dia 10 de junho de 2005, quando o Pato Fu lançou o disco “Toda cura para todo mal”. Foi o meu primeiro texto publicado no Flu Online.
PATO FU: NOVO CD PARA CURAR OS MALES
Enquanto a maior parte das bandas fica por aí pedindo que os ouvintes votem para que suas músicas alcancem o topo da lista de mais executadas na rádio, eles pedem votos para seus dois videoclipes inscritos no festival Anima Mundi. Enquanto a maior parte das bandas lança um single e, só depois (às vezes, bem depois), um CD ‘cheio’, eles lançaram o álbum uma semana antes do single. Enquanto a maior parte das bandas se restringe a fazer videoclipes das músicas mais famosas, eles farão de todas as 13 faixas do CD. ‘Eles’, é claro, são o Pato Fu.
No último dia 31, chegou às lojas de todo o país o sétimo álbum de estúdio da banda mineira, “Toda Cura Para Todo Mal” (SonyBMG, 2005), precedido pelo “MTV Ao Vivo”, de 2002 (o último de estúdio foi “Ruído Rosa”, gravado em 2001). Os três anos desde o ao vivo foram muito bem preenchidos pela nova integrante da banda: a pequena Nina que, de acordo com o compositor-podutor-guitarrista-gaitista-tecladista-violonista-vocalista e pai da criança, John Ulhoa, “participava dos ensaios, fazia visitas, dava umas olhadinhas”. Nina é filha de John com a vocalista Fernanda Takai e os ensaios, gravações e mixagens ocorreram na casa deles, em Belo Horizonte.
Há uma semana as rádios de todo o país começaram a tocar o primeiro single, “Anormal”. A escolha, segundo Fernanda, foi feita pela gravadora, mas os fãs já conheciam “Uh Uh Uh, La La La, Ié Ié!”, que, desde março, está na página da banda na internet.
O FLUMINENSE ONLINE conversou o Pato Fu, que explicou o novo CD e antecipou algumas novidades, como o lançamento de videoclipes inéditos, o que, segundo Fernanda, vai ocorrer pelo menos uma vez por mês.
Ouvindo ‘Toda Cura Para Todo Mal’, parece que ele traz um pop mais experimental que os últimos álbuns de vocês, como ‘Ruído Rosa’ e ‘Isopor’. A que se deve esta mudança?
John Ulhoa: Não sei. O CD é muito novo. Falta distanciamento crítico para eu fazer algum julgamento. Algumas pessoas pensam exatamente o contrário: acham que o ‘Ruído Rosa’, por exemplo, é mais experimental, mas eu não sei. O juízo sobre o disco, para mim, só se forma um ano depois. Posso dizer que as músicas são bem diferentes entre si e que nós tivemos muito tempo para produzir o álbum, levando o nível de acabamento até as últimas conseqüências. Foram três anos afastados de gravadora para curtir a chegada da Nina e, ao mesmo tempo, trabalhar com mais calma.O que vocês ouviram nestes três anos?
John: Ouvi muito uma banda do País de Gales, Super Furry Animals. Eles fazem um som muito bom. Além disso, escutei muita música de ninar, também. [risos]
Fernanda Takai: Super Furry Animals, Altercio Pelados, que são colombianos, e Goldfrapp. De brasileiro, ouço bandas novas, como o Ludov, e outras menos conhecidas, que mandam demos para a gente. Ah, também ouvi muita música de bebê. [risos]De que forma isso que vocês ouviram interferiu no ‘Toda Cura…’?
John: Interferiu pouco. A maior interferência foi o tempo que nós tivemos. Tem também uma influência muito grande do clima do estúdio, muito caseiro, muito amistoso e contou com visitas da Nina que, de vez em quando, participava dos ensaios, vinha ver a gente, dava umas olhadinhas.
Fernanda: Não influenciou diretamente, porque a gente costuma misturar bastante as coisas. O John, que compôs todas as músicas, se alimenta mais do cotidiano, dos filmes, dos livros, muito mais do que de músicas que a gente ouve.Vocês usaram computador para dar efeito de sintetizador de voz em algumas faixas do CD. Em que medida vocês aproveitaram estes recursos para finalizar o novo álbum?
John: A gente usa bastante este tipo de tecnologia nova, mas tentamos, ao máximo, não perder a característica orgânica de banda tocando. Gosto muito de manipular os sons no computador, mas também gosto de do som que a banda faz. Não consigo pensar neste assunto como algo fechado. Tem efeitos muito bons, mas também tem uns horríveis. Não dá para generalizar. Os efeitos eletrônicos são bons porque podem ajudar. Nós, por exemplo, fazemos uma manipulação cabeluda do áudio, mas também fazemos músicas como “Agridoce”, que não teve intervenção eletrônica.Por falar em novas tecnologias, o que vocês pensam sobre o mp3 e os i-pods?
Fernanda: Eu não acho que isso atrapalhe ou prejudique o meu trabalho. Desde que o nosso site entrou no ar, em 97, a gente coloca trechos de todas as músicas lá. Aí, os internautas ouvem nossas músicas, inclusive as que não tocam nas rádios, conhecem nosso trabalho e acabam comprando nosso CD. Eu mesma baixo muitas músicas em mp3. Aí, quando eu gosto, compro o CD, mais por um motivo profissional do que por outra coisa. Gosto de ler a ficha técnica, saber quem produziu, quem tocou…Vamos para outra parte do álbum. O projeto gráfico do encarte traz ilustrações dos ensaios e gravações. Vocês deram algum palpite na produção do encarte?
John: Palpite a gente dá sempre e em tudo. Se deixar, saímos por aí vendendo o álbum de porta em porta. Gostamos da idéia do encarte. São ilustrações sobre fotos do Ricardo [Koctus, contra-baixista], que dão um clima caseiro ao CD. Tem ainda as letras rabiscadas, que foram modificadas durante os ensaios e copiadas manuscritas para o encarte.Além das ilustrações no encarte, os videoclipes de vocês são desenhos animados. Dois, inclusive, estão na disputa do Anima Mundi 2005. Como vocês pensam em trabalhar os vídeos das músicas deste álbum?
Fernanda: A idéia é disponibilizar no www.patofu.com.br pelo menos um clipe por mês. Vamos fazer vídeos de todas as músicas e colocar tudo gratuitamente no site, para apresentar o álbum inteiro aos nossos fãs e também para quem não conhece. Das 13 músicas, já temos nove clipes prontos. Os outros quatro – “Agridoce”, “Anormal”, “Sorte e Azar” e “Vida Diet” – serão finalizados até agosto. Já sobre o Anima Mundi, a gente conta com o voto popular para os clipes de “Tudo” e “Uh Uh Uh, La La La, Ié Ié!”.
Sobre o repertório, em si, percebe-se uma grande diferença de ritmo entre a levada pop de “Uh Uh Uh, La La La, Ié Ié!” e a música que vem logo depois, a lentinha “Sorte e Azar”. Isso é proposital?
John: É proposital, sim, mas não é tão pensado quando estamos fazendo: a gente vai gravando e vê no que dá. Não nos prendemos a um ritmo e, por isso, é muito difícil nos rotular. É isso o que queremos. Já na hora de escolher a ordem do CD e também do show, damos prioridade aos contrastes e isso é muito divertido. Tocamos uma música rápida e, logo depois, uma lenta e essa característica heterogênea deixa o show com a mesma vibração do início ao fim.Por falar em show, como vocês vão fazer aqueles efeitos de sintetizadores e as distorções no palco, ao vivo?
John: A gente usa um computador no palco. Na verdade, este computador é um dos módulos do Lulu [Camargo, tecladista]. Ele tem um programa que manipula os sons em tempo real. A gente usa efeitos eletrônicos desde o início da carreira, mas, como eu disse, sempre procuramos manter a característica orgânica das músicas.A turnê do Pato Fu começa dia 3 de julho, em Belo Horizonte (MG), e ainda não tem data para chegar ao Rio.
Victor Ribeiro, O Fluminense Online