Essa foi para a versão online do Fazendo Media, um site/jornal que trata de assuntos ligados aos bastidores da imprensa e às relações entre a mídia e os poderes ecônimo e político. Publicada no dia 20/9/2005:
ALEMANHA FRAGMENTADA NOS 15 ANOS DA REUNIFICAÇÃO
Por Victor Ribeiro
O resultado da eleição para escolher o novo chanceler da Alemanha – a maior nação européia – ainda está incerto e pode significar uma crise, não só para aquele país, mas para toda a Europa, que tem na economia germânica um dos principais pilares da União Européia. Um país que há exatos 15 anos se reunificava formalmente volta a se dividir. Desta vez, o motivo não é a disputa ideológica (ou seria mercadológica?) entre capitalistas (EUA) e comunistas (URSS), mas a divergência partidária.Uma reportagem da agência de notícias alemã Deutsche Welle tenta explicar a situação: “A candidata da CDU (União Democrata Cristã), Angela Merkel, se diz aberta a negociar ‘com todas as facções, com exceção do Partido de Esquerda’. Ou seja, os tradicionalmente conservadores democrata-cristãos se dizem aptos a formar um governo com os arquirrivais social-democratas e até mesmo com os verdes, que, no cenário político alemão, estão a anos luz de distância das propostas defendidas pelo partido de Merkel”. Na Alemanha, o premier só pode governar se tiver maioria no parlamento. Por este motivo Merkel precisa fazer estas alianças. Se não houver consenso, pode ser convocada uma nova eleição.
A informação vendida por aqui é que o motivo de tanta discórdia seria a agenda política de Merkel, supostamente privilegiando as causas sociais. De acordo com o estudante Axel Burger, brasileiro naturalizado alemão, a política de Angela Merkel “é bastante neoliberal e pode acabar com os direitos dos trabalhadores e dos desempregados da Alemanha Oriental”. É aí que entra a histórica data de 20 de setembro.
Quinze anos atrás acontecia exatamente o contrário: os parlamentos de Bonn e Berlim Oriental, juntos, aprovaram o tratado da reunificação territorial, que entrou em vigor no dia 3 de outubro seguinte. Antes disso, em 1º de julho de 1990, a Alemanha já estava monetariamente reunificada. Esta unificação, no entanto, ainda não ocorreu no aspecto social. Axel conta que ainda existe preconceito de boa parte dos habitantes da antiga Alemanha Ocidental por aqueles que moram na região oriental: “Tem gente que é discriminada até mesmo pelo dialeto”.
O estudante lembra que as diferenças não acabam por aí: “O Partido Comunista da Alemanha Oriental só tem prestígio lá na Alemanha Oriental. Ainda no lado oriental, as taxas de desemprego são muito maiores do que no ocidental. Com a política neoliberal de Angela Merkel, a tendência é que o desemprego só aumente”. E sentencia: “A Alemanha ainda não se unificou totalmente”. Se Merkel se tornar chanceler da Alemanha, além de ser a primeira mulher a assumir este cargo, quebrará um outro tabu: será a primeira representante da antiga Alemanha Oriental a se tornar primeiro-ministro. Mesmo assim, para Axel, o programa de governo da candidata não contempla os orientais.
Axel Burger já estava na Alemanha há dois anos quando o governo comunista do lado oriental derrubou o Muro de Berlim, um dos principais ícones da Guerra Fria, no dia 9 de novembro de 1989. Na época, com nove anos, não conseguia entender exatamente o que se passava, mas sabia que as duas partes da Alemanha estavam se unindo e que aquele era um momento histórico: “Eu era muito pequeno, mas percebi que meus pais estavam interessados naquilo; era algo muito importante o que estava acontecendo, as pessoas na rua estavam muito emocionadas”. Atualmente Axel mora na pequena e histórica cidade universitária de Tübingen, no sul da Alemanha, e mantém uma característica bem peculiar do país onde nasceu: o otimismo. Ele acredita que um dia a Alemanha será uma só.