VictorRib

13 setembro, 2008

Entrevista com Cristiana Mesquita (2004)

Entrevista ping-pong feita por mim e pela Kellen Julio, do Fazendo Media, com a então chefe de produção da Associated Press Television News para a América Latina, Cristiana Mesquita, em março de 2004, dias antes de ela voltar para o Haiti e seguir para a base da APTN, em Buenos Aires.

ENTREVISTA: CRISTIANA MESQUITA

Mais de 20 anos cobrindo guerra. No currículo, Sarajevo, Nicarágua, El Salvador, Kosovo, Bósnia, Afeganistão e Iraque. Conversamos com Cristiana Mesquita, chefe de produção da agência de notícias Associated Press Television News na América Latina.

Victor Ribeiro – Por que cobrir guerra?
Por que não cobrir, deveria ser a resposta. É um evento jornalístico importante e não é para qualquer pessoa, porque envolve interesses, tem um preparo, mas que certamente todo o jornalista deve ter, pelo menos, curiosidade de cobrir. É notícia. É primeira página. É da maior importância que exista esta cobertura para as pessoas saberem o que está acontecendo.

Kellen Julio – Qual a sua opinião sobre a dificuldade na operação da notícia quando existe uma situação como a do Marcos Uchôa [correspondente da TV Globo], que cobriu a guerra do Iraque estando no Kuait?
Eu sei que foi muito frustrante, porque, por acaso, eu estava com o Uchôa na mesma época, no Kuait. Ele sozinho, com um cinegrafista no Kuait, ficou completamente à mercê das informações que recebia de segunda mão, ou seja: o que ele via na CNN ou recebia através das agências [de notícias].

Não vejo muito mérito em você cobrir a guerra no Iraque e ficar três ou quatro dias para passar no “Jornal Nacional”. Ou você vai para fazer um grande especial, ou você mantém regularmente um sistema em que você esteja regularmente lá.

Um lugar como o Iraque tem notícia todo dia. Se você quer fazer uma cobertura internacional séria, você não pode deixar de ter uma pessoa regularmente no Iraque. De um tempo para cá a televisão brasileira deixou de fazer cobertura internacional. As televisões têm contratos com as agências, recebem todas as imagens e aquelas que têm correspondente, saem e fazem uma passagem [trecho da matéria de TV em que o repórter aparece] por lá. Outro dia, assistindo ao “Jornal Nacional”, eu vi três matérias internacionais importantes, cobertas assim: a Patrícia Poeta falando sobre o Iraque, de Nova Iorque; o Luiz Fernando Silva Pinto, também sobre o Iraque, de Washington; depois vem o [Luiz Carlos] Azenha, também de Nova Iorque. Eu acho isso um recurso muito pobre. Não vejo razão para isso, porque quando você aparece é como se estivesse assinando a matéria. É como pegar o “Jornal do Brasil” ou “O Globo”, que publicam matérias da Reuters e da AP e, ao invés de colocar o nome da agência em cima, como eles fazem, um jornalista qualquer assumisse o crédito. Para cobrir uma guerra, você precisa ter uma estrutura que as televisões brasileiras nunca se prepararam para ter. Você tem todo um equipamento próprio, treinamentos especiais. Não sei qual é o esquema deles [os repórteres brasileiros], mas alguns editores argumentam que não há interesse em notícia internacional. Eu acho isso meio bobo. Não há interesse porque é malfeito. Se fosse bem feito, as pessoas se interessariam.

Victor – Não cobrem nem a Venezuela.
A América Latina, então, nem se fala… É uma vergonha total que a gente cubra tão mal a América Latina. Mesmo porque é a minha área, a minha paixão, apesar de eu viajar o mundo inteiro. Eu tenho que sair e comprar o “El País” [jornal espanhol], o “Clarín” [jornal argentino], se eu quiser saber o que está acontecendo na Venezuela ou na Bolívia, que está prestes a explodir de novo, porque aqui não tem nada. Na televisão, então, nem se fala.

Victor – Seria falta de interesse de quem?
Das empresas de comunicação. Eu detesto essa coisa de dizer que o público não está interessado. Eu não sou traficante de droga. Traficante de droga é quem diz: ‘Eu só vendo porque a galera compra’. Eu acho que é obrigação da imprensa informar. Isso acaba provocando um distanciamento cultural do Brasil com a América Latina, que é absolutamente trágico, porque dificilmente um brasileiro se considera latino-americano.

A sensação de latino-americanidade no Brasil é muito rara. Os meios de comunicação, pela sua própria falta de interesse, ainda não conseguiram deixar claro que tudo o que acontece na Venezuela, na Argentina, na Bolívia, tem repercussões da maior importância no Brasil.

Esse é um continente em que a gente precisava conhecer ao máximo uns aos outros, para até mesmo agir em bloco, quando necessário. Existe uma miopia muito grande das empresas de comunicação, que acham que a gente só quer saber o que está acontecendo em Washington ou na Europa. É fácil dizer que o Brasil adora coisa estrangeira, mas estrangeira do norte. Falar espanhol, nem pensar, é cucaracho [modo pejorativo como os latinos são comumente tratados nos EUA, em referência à palavra cucaracha, que significa barata, em espanhol]. Até os próprios jornalistas querem falar ‘Fulano de Tal, de Londres, para o “Jornal Nacional”’, não querem falar ‘Fulano de Tal, de Cochabamba, para o “Jornal Nacional”’. Eu acho um erro tremendo, que parece que a “Globo” está tentando acertar, colocando um repórter em Buenos Aires. A gente não tinha ninguém em Buenos Aires… Pelo amor de Deus! Tenha a santa paciência. Isso é ruim, porque do mesmo modo como eles são alijados por nós, eles também não reconhecem o Brasil como parte da América Latina. Como é que pode um país do tamanho do Brasil, com a riqueza cultural e a importância econômica que tem o Brasil, ser desconhecido para o resto da América Latina. É uma coisa de país colonizado, que só olha para os colonizadores, não olha para o vizinho.

Victor – Há pouco tempo a Bolívia passou por uma guerra civil. Agora você disse que ela está prestes a explodir de novo.
Vai estourar de novo, porque quando eles fizeram a formação do novo governo, mais uma vez as principais etnias e grupos, como os cocaleiros, quase não foram representados. Então, as razões que levaram ao levante do ano passado continuam lá. Nada foi resolvido com relação ao escoamento de gás, que não chegou a ser a razão, mas foi quase que um lema. Vai estourar de novo e cada vez eles se organizam mais. Cada vez os cocaleiros, os camponeses estão mais organizados e eles são aimares [etnia indígena], viu? Difícil de encarar.

Kellen – Você já cobriu guerra civil. Há pouco tempo a mídia dizia que o que se passava na Rocinha também era uma guerra civil.
Amiga, eu cobri Sarajevo. Eu morei em Sarajevo durante muito tempo. Aquilo é uma guerra civil.

O que acontece na Rocinha é uma pouca vergonha. Fico até feliz quando vejo na mídia ‘O Iraque é aqui’, porque enquanto a gente achar que aquilo é uma guerra civil, a gente nunca vai ter uma guerra civil.

Guerra civil é você não poder, dentro de uma cidade, pegar um ônibus e sair para trabalhar. É a falência de todas as instituições, quando você deixa de ter governo. É muito maior do que bandido trocando tiro com polícia, numa das favelas do Rio. Isso não é uma guerra civil: é uma guerra de gangues, com envolvimento da polícia, em que algumas pessoas, alguns civis inocentes, entraram no fogo cruzado. Mas ninguém está jogando bomba na minha casa.

Kellen – Mas é a imprensa que supervaloriza isso, ou é uma estratégia de governo?
Eu sinto muito. Adoraria dizer que a função principal dos jornais é informar, mas a função principal dos jornais é vender. Se você diz assim: ‘Troca de tiros entre bandidos na Rocinha’, você vende 100 mil exemplares. Se você coloca ‘O Iraque é aqui’, vende 500 mil. Agora, eu acho que isso desinforma sobre o que está acontecendo na Rocinha e sobre o que está acontecendo no Iraque. Porque assim como na Rocinha não está explodindo bomba e não morrem centenas de pessoas por dia, todos os dias, durante meses, o Iraque também não pode ser chamado de guerra de bandido. Nem as tropas americanas são bandidos, nem os rebeldes insurgentes são bandidos. Então, um título como esse desinforma totalmente. Eu acho irresponsável. E eu peguei uma dobradinha danada: foram dois meses e meio de Iraque e de lá eu fui praticamente direto para o Haiti. Aí, eu cheguei aqui e as pessoas falavam que eu não iria mais precisar viajar para ter guerra, porque tinha guerra na Rocinha. Tenha a santa paciência!

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