Reportagem publicada pelo site O Fluminense Online, no dia 14/5/2005, e no dia seguinte pelo jornal O Fluminense. Confesso que não tenho muita habilidade para cobrir celebridades, mas é um exercício curioso e, em certa media, divertido. Preferi focar no público (a “celebridade” só aparece mesmo no terceiro parágrafo) e na situação criada pela falta de… ahnnn… comunicação entre os organizadores, que deixou os fãs tristes e pegou o ator de surpresa. Acabou causando um tumulto desnecessário, que resultou num ferimento no próprio ator.
Para quem não está acostumado, aqui no Rio é muito comum encontrarmos artistas correndo na praia, fazendo compras, se divertindo em boates, na fila do cinema… Então, não é normal este assédio feroz. Normalmente os fãs conversam com os artistas, pedem uma foto, um autógrafo, são atendidos e tchau. Ninguém costuma sair correndo nem nada. Talvez fosse o caso de permitirem que o Bruno Gagliaso desse os autógrafos normalmente, já que ele não se opunha a isso.
BATE-PAPO, AUTÓGRAFOS, TUMULTO E CORRE-CORRE. É A 12ª BIENAL DO LIVRO
“Sandálias da Humildade para ele”, reclamava o pequeno Carlos Henrique Brás Junior, de 10, indignado, do lado de fora da “Arena Jovem”. Lá dentro, o tema da discussão era homossexualidade. Claro que, assim como a maioria das 40 ou 50 pessoas que se amontoavam nas duas portas da “Arena”, Junior não fazia a menor idéia do debate: “Quero ver o Bruno. Quero ver o Bruno”, dizia. Acabou não vendo.
Quem também queria “ver o Bruno” eram as amigas Priscila Elídia e Tayane Tardy, ambas de 12 anos, que, confessam, não são muito fãs de Bruno. Já a irmã de Tayane, Giuliana Tardy, de cinco anos, não se conformava: “O guarda não quer deixar a gente entrar”, repetia, com voz e expressão tristes, segurando um marcador de livro que algum espectador deixara cair. As três e mais algumas dezenas de fãs estavam numa “fila de espera” criada pelos seguranças que, na verdade, só deixavam o trânsito de pessoas fluir em um sentido: o lado de fora.
O Bruno em questão é o ator Bruno Gagliaso, 23 anos, intérprete de Junior, um personagem homossexual da novela “América”, da TV Globo. Nesta sexta-feira, durante sua participação na 12ª Bienal Internacional do Livro do Rio, o ator criticou a discriminação sexual e afirmou que pelo menos 8% do público da televisão brasileira é homossexual assumido. Bruno destacou a importância de saber respeitar as opções dos outros. No final do bate-papo, ele chamou os fãs para perto de si e deu alguns autógrafos, até ser interrompido pela organização da Bienal. Os seguranças e assessores pediram que ele fosse rápido na saída, para evitar tumultos.
Do lado de fora, o carrinho da Bienal o esperava, cercado por admiradores, fotógrafos repórteres e seguranças. Muitos seguranças – ao menos duas dezenas. Para abrir caminho, foi necessário dar um empurrãozinho nos fãs, que correram atrás do carrinho – devidamente escoltado pelos seguranças – até um dos portões de saída do Riocentro. Ninguém se feriu, a não ser o próprio Bruno Gagliaso, atingido nos olhos pela mão de alguém mais exaltado.
Victor Ribeiro, O Fluminense Online
